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O FIM DO SOFRIMENTO?

“Durante o minuto que foi gasto para escrever esta sentença, milhares de animais estão sendo comidos vivos; outros estão correndo para salvar suas vidas, gritando de medo; outros estão sendo lentamente devorados por dentro por parasitas; milhares, de todas as espécies, estão morrendo de fome, sede e doenças. Isto deve ser assim. Se algum dia houver um tempo de fartura, este fato por si só conduzirá automaticamente a um excesso populacional até que o estado natural de fome e miséria seja restaurado."
Richard Dawkins
O rio que saía do Éden: Uma visão darwiniana da vida (1995)

"Isto deve ser assim.” Richard Dawkins está certo? As cruezas da cadeia alimentar são um fato inescapável da Natureza: não mais variáveis do que, vamos dizer, a constante de Planck ou a Segunda Lei da Termodinâmica? A Declaração Transumanista expõe o nosso compromisso com o bem-estar de “toda a criação senciente”. Considerando os fatos colocados por Richard Dawkins, as palavras desta Declaração exprimem apenas uma esperança piedosa ou um desafio para a engenharia?

Meus trabalhos recentes têm o objetivo de investigar alguns dos passos práticos decorrentes da reconcepção compassiva de ecossistemas – imunocontracepção entre espécies, reescrita genética, carne produzida em laboratório, tecnologias de vigilância e monitoramento global de animais selvagens, e a utilização de nanorobôs em ecossistemas marinhos. Até esse século, a maior parte das intervenções imagináveis com o intuito de mitigar os horrores da “Mãe Natureza, rubra nos dentes e nas garras”, infelizmente, faria mais mal do que bem. Salve um herbívoro [“a presa”] e um carnívoro [“o predador”] morre de fome. E se, por exemplo, salvássemos elefantes selvagens que estão morrendo de fome ou sede, a explosão populacional destes resultaria em uma degradação do habitat e em uma catástrofe malthusiana. Isso levaria, consequentemente, a um sofrimento muito maior. É evidente que a capacidade computacional necessária para microgerenciar o ecossistema de uma reserva natural de tamanho médio teria que ser imensa considerando-se os padrões atuais. Mas recordemos que a Natureza sustenta apenas uma meia dúzia de “níveis tróficos”, bem como um punhado de “predadores chave” em qualquer habitat que seja. A criação de um verdadeiro mundo vivo livre de crueldade pode custar muitos trilhões de dólares, ou quem sabe até mais. Contudo, esse problema pode ser computacionalmente remediado ainda neste mesmo século – se reconhecermos que o sofrimento de animais selvagens realmente importa.

Alguns poucos comentadores (e.g. Robert Wiblin) são a favor de deixar que os animais selvagens extingam-se enquanto a destruição continua em ritmo acelerado. A maioria dos defensores dos animais ficaria horrorizada com essa ideia. Mas a questão da eliminação gradual de predadores carnívoros merece pelo menos ser ouvida com respeito, ainda que possamos rejeitá-la. Fazendo uma analogia com os seres humanos, pode-se dizer que não incentivamos a propagação de seres humanos predadores e serial killers que matam inocentes e vulneráveis. Dessa forma, por que não enfrentar todas as dificuldades das modificações genéticas, além de outras coisas, reprogramando as suas contrapartes animais?

Entretanto, presume-se que permitir que uma espécie seja extinta é algo que não deve ser feito levianamente. Assim, se nós:

1) quisermos que espécies de animais selvagens icônicas sejam conservadas em algum outro lugar;
2) e formos moralmente contrários a todas as formas de sofrimento involuntário
então a reconcepção de ecossistemas oferece um compromisso radicalmente bioconservador e humanitário. Olhando mais a frente, permanecerá como uma questão em aberto a possibilidade de nossos sucessores pós-humanos optarem por preservar as formas de vida animal primitivas – tanto de humanos quanto de não-humanos.

Uma imensa quantidade de sofrimento no mundo atual não provém só da Natureza selvagem, mas também das atividades humanas. De longe, a maior fonte de sofrimento evitável tem origem na criação e abate de outros seres sencientes para o consumo. Enquanto escrevo, cerca de 25 bilhões de animais não-humanos enjaulados suportam vidas de grandes tormentos em nossas fazendas de criação intensiva. Desta forma, um dos avanços tecnológicos mais excitantes dos últimos anos têm sido os progressos relativos ao desenvolvimento de carne in vitro. Com o financiamento para pesquisa adequado, uma saudável e deliciosa carne produzida em laboratório, cujo gosto e a textura são mais saborosos do que qualquer carne advinda de animais criados intensivamente, poderá substituir os produtos de origem animal atuais. A princípio, o processo de produção em massa poderia ser conduzido indefinidamente, permitindo a adoção do veganismo em escala global sem o incômodo da mudança na dieta humana, uma perspectiva que soa utópica nos dias de hoje.

Alguns de meus amigos do movimento pelos direitos dos animais ficam horrorizados com a perspectiva da produção de uma carne artificial geneticamente modificada. Não por menos, eles argumentam que o seu desenvolvimento seria uma distração de nosso dever de nos posicionarmos moralmente contra o holocausto animal. Porcos, por exemplo, possuem o desenvolvimento intelectual e emocional de uma criança pequena. Certas evidências neurológicas sugerem que, no mínimo, os porcos têm uma capacidade igual de sofrer dores físicas e emocionais intensas. Nós realmente iremos continuar apoiando a criação intensiva e o abate de seres sencientes que são funcionalmente semelhantes aos nossos filhos até o momento em que alternativas livres de crueldade estejam disponíveis?

O mais provável é que sim. Espero estar errado, mas sou pessimista com relação à força da argumentação moral exclusivamente para superar a apatia moral e o viés antropocêntrico. Os seres humanos apresentam uma extraordinária capacidade de inventar racionalizações com o intuito de justificar o abuso tanto de humanos quanto de não-humanos. Mas recordemos, por exemplo, os séculos que foram necessários até a abolição da escravidão humana e os argumentos propostos em sua defesa. A única maneira de podermos abolir com certeza as cruezas da indústria da carne é tornando a criação intensiva de animais economicamente inviável em comparação ao consumo de carne artificial. Assim, organizações como a New Harvest [“que trabalha em prol do desenvolvimento de novos substitutos para a carne”] deveriam ser bem recebidas pelos transumanistas.

As novidades sobre os métodos high tech para melhorar a vida são variadas. Acerca disso, considerarei apenas um exemplo da psiquiatria. Talvez o maior desapontamento dos últimos anos tenha sido reconhecermos que aquilo que a medicina moderna chama de “antidepressivos” se sai apenas um pouco melhor do que meros placebos quando estudos não publicados são incluídos na meta-análise sobre sua eficácia. O viés de publicação, conflitos de interesse e escritores-fantasma são endêmicos para a medicina acadêmica. Mesmo o instrumental científico mais minucioso de testes duplo-cego, prospectivo, cruzado, controlado via placebos em exames clínicos poderia ser subvertido pelo nexo monetário e pelo lado mais negro do lobby farmacêutico [Big Pharma]. Pior ainda, qualquer solução futura para os flagelos das doenças depressivas em si está longe de ser elucidada. Duas características da depressão melancólica são a tristeza profunda e a baixa motivação. Os agentes terapêuticos que com segurança elevam o ânimo e aumentam a motivação – i.e. opióides agonistas dopaminérgicos do tipo mu – têm um potencial de abuso significativo. Então, a busca por antidepressivos de ação rápida, seguros e efetivos com um potencial de abuso negligenciável seria apenas uma fantasia?

Se quisermos mudar para sempre a história da depressão, creio que tratamentos genéticos serão necessários. Psiquiatras evolucionistas acreditam que a depressão originou-se como uma adaptação individual em relação à vida em grupo dos mamíferos sociais. Quaisquer que sejam suas origens evolucionárias, a depressão e outras desordens de humor são geneticamente redundantes no mundo moderno. Se todos nós desfrutássemos de motivação e humor sadios desde o nascimento, então o genoma humano não precisaria ser reescrito. O diagnóstico genético pré-implantação ((PGD) de futuros filhos deve se tornar um preceito, assim como a iminente revolução reprodutiva que se desdobra. Ao mesmo tempo, quase um milhão de pessoas no mundo contemporâneo suicida-se todos os anos. Outras centenas de milhões sofrem de depressão não tratada. Esperar que aqueles que sofrem de depressão refratária agüentem por décadas ou mais até que a medicina genética distribua uma cura seria insensível no melhor dos casos. Pessoalmente, creio que qualquer vítima contemporânea de depressão “resistente ao tratamento” deveria ter o acesso compassivo permitido a terapias farmacológicas efetivas, apesar dos perigos da dependência fisiológica.

Durante minha conferência em abril, espero poder atualizar e resumir em linhas gerais o Projeto Abolicionista. O que deve ser feito a seguir? Também espero poder falar algo sobre as conexões entre a abolição do sofrimento e amplificação da inteligência, riscos existenciais, prolongamento radical da vida e as (contestadas!) expectativas de alguma espécie de Singularidade tecnológica. É claro que o transumanismo é uma igreja excessivamente ampla. Então, quais laços unem esses temas aparentemente tão diversos?

* * *

English version: The End of Suffering
Author: David Pearce (2010)
Technical Review by: Lauren de Lacerda Nunes (2011)
Translation by: Gabriel Garmendia da Trindade (2011) see too 1, 2, 3, 4, 5 & 6, 7 & 8.

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